Esboços sobre Metrópole e Teatro*
Luiz Recamán**
1.
Se a forma teatral almeja algo além da representação do drama cotidiano da existência, contando as infinitas histórias possÃveis em que isso se passa; se pretende explorar o lugar em que as contradições da vida impregnam o próprio fazer artÃstico, colando o teatro à realidade em transformação, deve refletir sobre a natureza da metrópole. Mais que seu cenário, ela é o ambiente total que dá fundamento e razão de ser à ação teatral. E, levando ao limite as contradições do momento atual, da unificação mercantil das esferas autônomas do mundo social, pode fazer-se a pergunta essencial: é possÃvel ainda conceber-se enquanto forma contrastada e distinta do mundo?
2.
 O teatro na história destaca, ilumina, amplifica e analisa uma questão do grupo organizado (civitas, polis, cidade, burgo, metrópole, etc.), para que os homens que agem – no mundo, fora do lugar teatral – possam tentar resolvê-la, se assim quiserem ou puderem. Portanto deve-se saber, para entender o teatro, a qual cidade, a qual interlocutor-indivÃduo, a qual relação com a natureza e sua transformação produtiva se refere essa formalização do pensamento apresentada. O fato dessa forma se manter na história, pelo menos até os dias que correm, não é suficiente para entendê-la fora da História e de sua historicidade. Mudadas as circunstâncias, mudam as peças e as posições nesse jogo. Três pontuações: na Grécia, o cidadão esclarecia a tensão sem tréguas entre o destino do individuo e o destino do grupo na polis. No teatro elisabetano, constituÃam-se as balizas e confrontos do rebento burguês no desembaraçamento do mito e da religião. No teatro burguês, esmiuçava-se a angústia do sujeito, gerada pela desproporção entre as possibilidades abertas pela revolução técnica e a sua realidade comezinha. Todos produziram idéias que ressoam em nós, na nossa humanidade, ainda que vivamos já formas sócias distintas, que daquelas retenham o dna e algumas determinações. Pois produzimos, ainda, nossa existência material, e resistimos, ainda, à diluição de nossa individualidade no coletivo. Mas interessa mais que a perenidade dessa tensão incessante da existência, a maneira social de transformar o mundo e a nós mesmos. E quanto a isso, deles resta apenas o silêncio.
3.
A façanha da construção social da subjetividade ocidental (neste instante transformada e mundializada) está realizada no teatro, quer como sua representação privilegiada, quer como material formador. Os personagens arquetÃpicos do teatro, não apenas se dispõem no saguão à nossas costas, contando as vicissitudes de nossa história, como estruturam aquilo em que nos transformamos. Suas falas em eco são as nossas falas, e portanto a nossa consciência plástica de nós mesmos e do mundo. ConstituÃmos assim o próprio mundo, e nosso entendimento está sempre confrontado e moldado pelas necessidades de a ele sobreviver. Esse confronto gera desamparo, e na modernidade, ação. E modernamente exigimos revolução, aproximamos ao máximo o pensar e o fazer, amalgamando-os na construção do novo. E esse pensamento moderno, diretamente colado ao mundo da ação e transformação, realizado, é subsumido pelo mundo da produção. Autonomia transmuta-se em alienação, o sujeito individual em sujeito coletivo, em classe social. A liberdade positiva da subjetividade burguesa realiza-se na sua diluição no mundo das coisas, dos objetos mágicos, ou seja, das mercadorias. Desfazer esse auto-engano, dar consciência dessas contradições que desumanizam o homem, para as massas, sujeito coletivo, e não mais para o angustiado e paralisado sujeito burguês em franca retração (e de cuja cultura antagônica não se pode esperar mais nada), é tarefa pretendida pelo teatro moderno, no universo da seriação industrial de coisas e pessoas. A alienação e o seu ataque mantém a possibilidade de emancipação da subjetividade. E para ela se dirige a crÃtica e a ação.
4.
A metrópole é a nova natureza na qual se dilui o homem a partir da modernidade. Seu aparecimento atesta a crise da autonomia burguesa, o trânsito do mundo da transformação da natureza pela técnica (sob domÃnio do homem) em direção ao pleno artifÃcio (não mais sob o domÃnio ou compreensão do homem). A cidade, e a grande capital européia, é o ambiente que produz e é produzido pelo sujeito moderno. E sua desenvoltura nesses espaços, vielas, avenidas, praças e monumentos, foi ameaçada e sacrificada pela aparição da metrópole, o monstro-máquina de vida própria, ela sim autônoma, a que todos se submetem. Enfrentar essa desorganicidade através da planificação a partir do zero foi a resposta radical da cultura européia a esse leviatã fora de controle. Abraçar a alienação do homem-tipo para construir o futuro livre a partir da indústria. Tornar negativa a recepção distraÃda da massa no teatro corresponde a superar o caos da ordem industrial a partir da máquina e de sua lógica funcional. Esse encontro definitivo entre ideologia e o mundo, além de produzir o sono da razão, colou um ao outro, tornando-os indistintos. Forma, arte e cultura se desmancham no ar.
5.
A cultura das massas, própria do mundo industrial fordista, gerou o fascismo e a indústria cultural, formas avançadas e alternativas da produção de mercadorias. O desdobrar dessa última, a industria cultural em sentido mais abrangente, alcançou o globo a partir das tecnologias de comunicação e informação. Dirimiu os limites entre trabalho e vida, entre mercadoria e valor, avançando sobre as formas antes preservadas da existência humana. Nessa nova totalidade dilui-se também a consciência possÃvel, e qualquer forma de distanciamento (o que a torna inconcebÃvel para uma individualidade fragmentada). Podemos chamar essa nova totalidade de cultural. Indistintos estão os pensamentos e os objetos, no mundo espetacular do capitalismo avançado. Ação é apresentação e representação, mas talvez não possa mais ser transformação. Ocupar um edifÃcio como ação de cidadania por um grupo de teatro elucida os dilemas da cultura metropolitana, e os limites da desterritorialização extra-humana a que as formas avançadas de produção submetem o homem. Seu desdobramento em forma teatral é a questão aberta pelas contingências atuais. Representar a ocupação, procurando extrair assim sua negatividade, pode não suportar a indefinição e sobreposição dos espaços, dos papeis e das falas. Resistir perseverando formas do passado abre o abismo entre o que se fala e como se fala, o que a modernidade tornou impossÃvel. Lançar-se a esse embate, como em circunstâncias outras fez Baudelaire, pode ser a prática possÃvel, ainda que desta vez não se dirija a lugar desejável ou imaginável. E resuma-se radicalmente à própria prática, à própria ação. E dai extrai seu sentido, mas com tal agilidade que escape à sua incorporação produtiva.
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* Estes esboços referem-se livremente a extratos do debate realizado no Seminário Cenas de Intervenção, em 03/05/2006.
** Luiz Recamán é arquiteto e professor da Escola de Enegnharia da USP-São Carlos.








intiresno muito, obrigado
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